Tornar-se cuidador: um processo

13-11-2017

"Aos 75 anos, o meu pai foi submetido a uma cirurgia do coração, no entanto, sofreu um AVC durante o procedimento.

Quando teve alta hospitalar, esteve 3 meses em convalescença numa clínica especializada e recuperou alguma mobilidade ainda que reduzida. A minha mãe decidiu mantê-lo em casa mas foi uma aprendizagem difícil.

Ele sofreu vários AITs (Ataque Isquémico Transitório) levando-o a vários internamentos hospitalares seguidos de períodos de convalescença. Em cada episódio, o seu estado piorava até que um dia os médicos aconselharam-nos, fortemente, a adquirir o serviço de apoio domiciliário (SAD). A minha mãe estava a esgotar-se e custava-lhe muito aceitar essa ajuda mas, finalmente, quase que foi obrigada a aceitar.

Quando o meu pai perdeu completamente a sua mobilidade, o meu irmão e eu decidimos ajudar a mãe. Foi nesse preciso momento que parei de trabalhar de todo.

De manhã, a minha mãe cuida do meu pai. O SAD vem para a higiene pessoal e o levantar. Após o almoço, o meu irmão ou eu deitamos-o e a seguir à sua sesta, eu venho levantar o meu pai e fazemos atividades juntos e à noite eu deito-o. A equipa do serviço de apoio domiciliário vem logo a seguir para os preparativos para a noite.

No início, eu atirei-me de cabeça e sem experiência, fui procurando informações na internet. Progressivamente, ao viver nesta situação e com a ajuda do SAD, eu descobri diversas estratégias e pessoas que me são preciosas para aliviar o meu trabalho, como por exemplo, ter os bons gestos para não cometer erros. Hoje, eu evoluo todos os dias com serenidade graças a todo esse pequeno mundo que me apoia.

Eu sou responsável pela organização e pelas tarefas administrativas dos meus pais. Eu também planeio estadias de curta duração (uns 10 dias) 4 a 6 vezes por ano, para que a minha mãe possa recarregar as energias e que eu possa ir de férias com o meu marido.

Sem a ajuda dos seus filhos, a minha mãe não poderia cuidar do meu pai em casa.

A brusca mudança de vida foi relativamente fácil no início, mas após alguns meses, comecei a pôr tudo em causa, achava a minha vida demasiada aborrecida e desinteressante, sentia-me inútil! Comecei a pensar sobre como eu poderia sentir-me útil enquanto fazia outra atividade ao mesmo tempo. Um dia, conheci uma enfermeira, senti um interesse comum em colocar um nome em parentes e a atribuir-lhes um lugar na sociedade. O seu discurso chamou-me a atençao e eu ofereci o meu testemunho sobre a minha experiência enquanto cuidadora. Mais tarde, voltámos a encontrar-nos e ela apresentou-me a outras pessoas interessadas em criar uma associação de cuidadores. Finalmente, senti-me existir e motivada para a continuação do meu trabalho. Agora sou membro da direção e espero trazer uma pequena mais-valia na reflexão dos nossos objetivos.

A relação familiar está a correr bem, sempre fomos muito unidos por isso há uma facilidade de comunicação. Acho que o mais desfavorecido nisto tudo é, com certeza, o meu marido que tenta entender o meu apego à minha família. É difícil agradar a todos mas, esforço-me, vale a pena!"

Testemunho de Madeleine tirado e adaptado de https://proches-aidants.ch/madeleine/

   Com este testemunho, pode-se verificar que a necessidade de cuidar de um familiar dependente é, frequentemente inesperada, estando, o cuidador informal habitualmente despreparado e sem formação prévia para assumir tal responsabilidade. Portanto, o tornar-se cuidador informal não acontece de um dia para o outro, trata-se, sim, de uma transição com a necessidade de uma aprendizagem e adaptação constantes conforme a evolução da doença do familiar e em função de outros inúmeros fatores. Isto é, trata-se de um processo complexo de envolve muitas variáveis com influência mútua cujo resultado será diferente, em função do cuidador, da pessoa dependente e do contexto em que se desenvolve a relação de prestação de cuidados.

"Transição_ É uma passagem de uma fase da vida, condição ou estado para outro. Refere-se tanto aos processos como ao resultado de um complexo de interações entre a pessoa e o ambiente." (Meleis e Trangenstein, 1994:256).

    Segundo Brereton e Nolan, no seu artigo "Seeking: a Key activity for new careers of stroke survivors", "no processo de transição o cuidador passa por 4 fases:

  • "O que é isto tudo?_ Incerteza e confusão dos prestadores de cuidados após o evento gerador da dependência_ necessita de informação;
  • "Fazer sozinho"_ Sensação de isolamento, procura de informação, habilidade e apoio;
  • "Mãos ao trabalho"_ Sentimento de confiança para prestar os cuidados necessários;
  • "E eu?"_ Sentimento de que as suas próprias necessidades estão escondidas/postas de parte por aqueles que cuidam e que o seu conhecimento sobre o familiar é desvalorizado pelos profissionais" (as cited in Sequeira, 2010).

    Esta transição para o exercício do papel de cuidador constitui uma necessidade de mudança em que é fundamental uma tomada de consciência sobre a alteração que ocorreu na sua vida e a procura de novas respostas/formas de adaptação que influenciará como cada cuidador vivencia esta mudança de vida.

     Cada um de nós possui um conjunto único de ferramentas que nos permite reagir de forma diferente a situações similares. Contudo, é possível identificar respostas típicas em função do estádio em que a pessoa se encontra, tais como:


  • "Minimização/negação;
  • Depressão/indiferença;
  • Exploração de alternativas/procura de significado;
  • Aceitação/envolvimento" (Sequeira, 2010).

     De acordo com Schlossberg (1981), existem 3 grupos de estratégias adaptativas que permitam restabelecer o equilíbrio necessário a uma transição adequada (ver imagem abaixo):

  • "Os que se relacionam com a transição em si (momento, duração, mudança de papéis, etc.);
  • Os que se relacionam com o sujeito (características pessoais, personalidade, estratégias de coping, capacidade de controlo sobre a situação, etc.);
  • Os que se relacionam com o ambiente onde se processa a transição (tipo de relação, suporte social, etc.)" (as cited in Sequeira, 2010).

   Resumindo, um membro da família, pode, repentinamente, adoecer e ficar dependente obrigando toda a família, principalmente, o cuidador informal principal, a tomar consciência da situação e adaptar-se a esta mudança de forma faseada, com recursos a diferentes estratégias de adaptação e revelando necessidades específicas em cada fase do processo de adaptação. O sucesso/insucesso desta transição é influenciada por múltiplas variáveis, sendo de particular importância o acompanhamento e apoio a estes cuidadores e doentes por parte dos profissionais de saúde.

Desafio de Cuidar realiza este acompanhamento e apoio, através de uma avaliação inicial e de seguimento rigorosas, elaboração e implementação de um plano de intervenção personalizado e adaptado às necessidades específicas de cada família com soluções especiais destinados à famílias carenciadas a fim que toda a família cuidadora tenha acesso a este importante apoio. Não hesite a entrar em contacto comigo, terei todo o gosto em apoiá-lo neste desafio que é cuidar de um familiar dependente.

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